
Traduzido do artigo original em espanhol. Ler em espanhol
Imagine conquistar sua liberdade numa guerra… e depois ser obrigado a pagar por ela. Foi isso que aconteceu com o Haiti.
Na [primeira parte](haiti-1.html) vimos como as pessoas escravizadas da colônia mais rica do mundo derrotaram Napoleão e fundaram o Haiti em 1804. Esta é a segunda parte.
Livre, mas sozinho
O Haiti era livre, mas estava sozinho. Nenhuma potência o reconhecia como país. A França queria recuperar sua colônia, e outros países temiam que a rebelião contagiasse seus próprios escravizados.
Catorze navios de guerra
Em 3 de julho de 1825 chegaram a Porto Príncipe catorze navios de guerra franceses, com mais de quinhentos canhões.
Traziam uma ordem do rei Carlos X: a França reconheceria a independência do Haiti, mas com uma condição. O Haiti tinha de pagar 150 milhões de francos, em cinco parcelas, para indenizar os antigos colonos.

Ou seja, os antigos donos das plantações. As pessoas que tinham sido escravizadas tinham de pagar pela própria liberdade.
O valor exigido equivalia a pelo menos dez vezes o que o Haiti arrecadava num ano inteiro.
Com os canhões apontados para o porto, o governo do presidente Jean-Pierre Boyer aceitou.
A dupla dívida
Mas o Haiti não tinha esse dinheiro. Teve de pegar emprestados 30 milhões de francos de um banco francês.
Os bancos ficaram com suas comissões, e o Haiti teve de mandar para a França o que restava no seu tesouro. Assim nasceu o que muitos historiadores chamam de dupla dívida: uma dívida para pagar outra dívida.

Décadas pagando
Em 1838, a França reduziu o valor para 90 milhões. Mesmo assim, o Haiti continuou pagando durante décadas.
Nos anos 1870 pediu mais empréstimos a bancos franceses, que ficaram com cerca de 40% em comissões. Até o Banco Nacional do Haiti, criado em 1880, tinha sede em Paris.
O dinheiro que podia construir escolas, hospitais e estradas ia para o outro lado do oceano.
O ouro que viajou para Nova York
E a história não termina na França. Em dezembro de 1914, fuzileiros navais dos Estados Unidos tiraram do banco do Haiti cerca de 500 mil dólares em ouro e os levaram para um banco de Nova York.

Sete meses depois, os Estados Unidos invadiram o Haiti. Essa é a história da [terceira parte](haiti-3.html).
122 anos de pagamentos
No total, o Haiti pagou cerca de 112 milhões de francos, uns 560 milhões de dólares de hoje. Os últimos pagamentos, com juros, foram feitos em 1947: cento e vinte e dois anos depois da chegada dos navios.
O Haiti fez os últimos pagamentos em 1947, 122 anos depois.
Em 2022, o jornal The New York Times consultou quinze economistas. Eles calcularam que essa dívida fez o Haiti perder entre 21 e 115 bilhões de dólares em crescimento.
Os que pediram o dinheiro de volta
Em 2003, o presidente Jean-Bertrand Aristide exigiu da França mais de 21 bilhões de dólares. No ano seguinte ele saiu do poder, e o governo que o substituiu retirou o pedido.
Em 2025, duzentos anos depois, o presidente Emmanuel Macron reconheceu que foi uma injustiça e criou uma comissão de historiadores. Mas não ofereceu devolver o dinheiro.
A dívida não explica toda a pobreza do Haiti. Mas durante mais de um século, a riqueza que podia levantar um país foi para o exterior.
Esta história também é um vídeo
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Fontes (em espanhol)
- Ordenanza de Carlos X (17 de abril de 1825), los 14 barcos y más de 500 cañones, el préstamo de 30 millones, la rebaja a 90 millones (1838), los préstamos de 1874-1875, el Banco Nacional de Haití (1880), el oro llevado a Nueva York (diciembre de 1914) y la petición de Aristide (2003): Wikipedia (Haitian independence debt).
- Total pagado (unos 112 millones de francos, unos 560 millones de dólares), últimos pagos en 1947 y estimación de 15 economistas: The New York Times, «The Ransom» (2022).
- La indemnización equivalía al menos a diez veces los ingresos anuales de Haití: BnF, Patrimoine France-Amériques.
- Macron reconoce una injusticia y crea una comisión de historiadores (17 de abril de 2025): AP / La Nación y Le Nouvelliste.
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